Sem direção em Joanesburgo

June 23rd, 2010 por Paulo Torres

Todas as reportagens pré-Copa eram unânimes ao dizer que Joanesburgo é uma cidade perigosa, em que ninguém anda a pé pelas ruas e as distâncias a percorrer são enormes. E chegando aqui, percebemos que Joanesburgo é uma cidade perigosa, em que ninguém anda a pé pelas ruas e as distâncias a percorrer são enormes, e o jeito é se adaptar a isso.

Foto bonita, mas é uma região barra-pesada

Em meu primeiro dia por lá, cheguei ao hotel às 3 da tarde, praticamente arremessei a mala pra dentro do quarto e fui de táxi pro Brasil x Coreia do Norte (marcado para 20h30). O Ellis Park fica no centro da cidade, bem ao lado de Hillbrow, o bairro tido como a cracolândia de J’burgo. (Melhor descrito pelo Fábio Zanini, correspondente da Folha, no blog dele.) O taxista, tentando evitar os congestionamentos, foi se embrenhando pelas ruazinhas do centro, se complicou todo com as ruas que estavam fechadas ao trânsito, e acabou me proporcionando um tour involuntário por Hillbrow. Sem fotos, porque não tive coragem pra isso. Rodou por uma meia hora perdido, até um policial a quem ele pediu informações disse pra parar o carro e me acompanhar numa caminhada até a porta do estádio. Isso bem no pé dessa torre redonda da foto, pertinho do Ellis Park, uma caminhada curta mas bem tensa.

Chegando ao Soccer City, após longa jornada

No dia seguinte, peguei um folheto sobre o transporte público (link para o PDF do folheto) para os estádios. Após uns 50 minutos olhando fixamente pra esse information overload em forma de folheto, concluí que de meu hotel, o Road Lodge Randburg (hotel econômico da rede City Lodge, melhor que um Fórmula 1 mas pior que um Íbis, com funcionários muito atenciosos), a opção mais fácil era ir de táxi a Sandton (200 rands a ida), e de lá pegar o Metrobus até a estação Westgate (40 rands ida e volta) e então o ônibus Rea Vaya para o estádio (10 rands ida e volta). Nisso tudo, demorava 1 hora na ida ao estádio e cerca de 2 horas e meia a volta.

A gente acaba se acostumando às vuvuzelas

Para pagar caro e gastar bastante tempo, eu estava preparado. O pior era a falta de informação. Voluntários e policiais nos pontos de embarque dos ônibus estavam mais perdidos que eu. Alguns motoristas não conheciam suas rotas. Havia placas indicativas nas saídas dos estádios, mas absolutamente nada nos pontos de embarque dos ônibus em Sandton, em Constitution Hill ou no Gold Reef City. O lance era procurar grupos de torcedores uniformizados/fantasiados e seguí-los até o ônibus. E o tal folheto, que peguei na discreta barraquinha da cidade de Joanesburgo na “fan area” do Ellis Park, deveria era estar disponível em todas as recepções de hotel, entradas de shopping centers, ou em qualquer ponto de venda de vuvuzelas.

Caminhar pela rua em Joburg, só dentro de um shoppping

Em Joanesburgo assisti quatro bons jogos: Brasil 2×1 Coreia do Norte e EUA 2×2 Eslovênia, no Ellis Park; Argentina 4×1 Coreia do Sul e Brasil 3×1 Costa do Marfim, no Soccer City. Passei uma semana na cidade, gastei uma grana surreal em táxis, tive motivos para me irritar, e acabei não fazendo nem metade dos programas de turista que gostaria. Passeei por dois shoppings, o Sandton Central/Nelson Mandela Square, que acabou se tornando a concentração dos torcedores que não sabiam pra onde ir, e Montecassino, que é tipo um shopping de entretenimento (restaurantes + teatros + cinemas +cassino) decorado de forma a parecer uma rua de cidade mediterrânea; e visitei os recomendados Museu do Apartheid e Lion Park. Mas deixo para falar bem da cidade em um próximo post (que não demorará tanto, agora consegui internet estável).

Da Cidade do Cabo

June 9th, 2010 por Paulo Torres

Segunda-feira (dia 7) cheguei aqui, após uma razoavelmente longa jornada (1 hora de TAM até Guarulhos, 8 horas e meia de SAA pra Joanesburgo, e 2h10 de Kulula aqui para a Cidade do Cabo. O que a South African Airways tem de pose (aeromoças elegantes, refeições cuidadosamente bem apresentadas) a Kulula tem de moderninha/engraçadinha, com direito a piadinhas nos avisos de segurança (“Não é permitido o uso de telefones celulares até que as portas da aeronave estejam abertas. Caso algum passageiro seja visto contrariando esta regra, vamos confiscar o celular e ligar para todos nossos parentes no exterior.”)

SAA's no aeroporto de Joanesburgo

Meu albergue é o Ashanti Lodge, na região de Gardens, próxima ao centro e aparentemente segura. No meu quarto para oito pessoas, havia eu e seis mexicanos até ontem – hoje, os seis mexicanos saíram e chegou um inglês. Albergue muito limpo, com um bar que terá um telão com os jogos da Copa, quartos com cofres individuais e armários com cadeados, e internet a 20 rands por hora. E na recepção do albergue são oferecidas várias opções de passeios guiados, como o que fiz hoje, para a Península do Cabo – vide post seguinte.

Table Mountain, meio escondida ali

Já deu pra sentir como é a cidade: região central tumultuada; o Waterfront (área do porto reformada na década passada e hoje cheia de shoppings e restaurantes) é o principal habitat dos turistas – que são muitos; grandes congestionamentos pela manhã e no fim a tarde nos acessos aos subúrbios; clima chuvoso e agora e junho um tantinho frio – mas estava pior no dia que cheguei.

Vuvuzela tamanho Godzilla

Sobre a Copa do Mundo, algumas coisas vêm sendo feitas em cima da hora, tipo a FanFest (gigantesca) que está ainda sendo montada, mas a cidade já está toda sinalizada e enfeitada. A animação dos capetonians é notável. Bandeiras nos carros, muitas camisas dos Bafana Bafana, vuvuzelas pra todo lado – sendo vendidas e sendo sopradas. Turistas uniformizados já se fazem notar, com uniformes, com bandeiras amarradas no pescoço, com sombreros (mexicanos por todas as partes), e agora há pouco uns brasileiros tentavam puxar uma batucada na Long Street – a principal rua de restaurantes da cidade – sob o olhar meio indiferente dos locais.

Prometi a mim mesmo que escreveria sem muita demora sobre meus dias legais por aqui, para aproveitar a memória ainda fresca. Espero cumprir a promessa.

- Ah, você vai para a Copa do Mundo?

June 5th, 2010 por Paulo Torres

- Ah, você vai para a Copa do Mundo? Acha que o Brasil vai ser campeão? Essa pergunta eu escutei algumas dezenas de vezes, nas últimas semanas. E não soube responder. Na verdade, não me importo. Porque sei que vou me divertir bastante seja qual for o resultado final. E, principalmente, porque andei com a cabeça totalmente apontada para a parte prática do “ir à Copa do Mundo”: ingressos, hospedagem, atrações turísticas, transporte, cartões de memória extra para a câmera, e promover uma interação bacana entre todos esses tópicos.

Viajar por conta própria é bem legal, pra quem não se importa muito em passar um tempo sozinho. Sozinho, todas as decisões são unânimes, a única pessoa que você tem que convencer é o seu próprio bom senso. Mas as viagens solo têm um lado bom e um lado ruim. (Como tudo na vida, exceto o LP do Wando, que tem dois lados ruins! Preciso parar de usar essa piada todo o tempo.) Além da óbvia falta de companhia para jantar, de não ter com quem rachar o táxi, e das dificuldades em aparecer nas fotos, você se torna o único responsável por transformar uma viagem legal em um CARA QUE VIAGEM SENSACIONAL!

Daí, foram meses lendo guias de viagem, navegando no Google Earth pra saber da localização de cada hotel/albergue/estrebaria, brigando com os sites bugados das companhias aéreas sul-africanas. Acho que deu resultado: consegui encaixar no meu roteiro jogos nas nove cidades-sede (incluindo três jogos do Brasil), e ainda sobra um tempo pra bancar o turista. Isso sem maratonas malucas de vinte-cidades-em-seis-dias e sem precisar vender meu corpo pra pagar a conta.

Domingo embarco, segunda-feira chego no lado de lá do Atlântico. Se tudo der certo, sigo atualizando o Ao Zambezi! lá da terra da Charlize Theron. E também o meu blog primário, companheiro de tantos carnavais.